"Narciso não morreu por ter
se olhado no espelho formado por uma fonte na Grécia, mas sim
por ter tomado seu reflexo por um corpo.
Espelho se algum dia eu te esquecer, que seja eu Narciso ou *Perceu,
eu me perderei ".
(P.C. Racamier)
"Se quero achar-me
em mim dizendo-o, minto.
A vasta teia, estive-a e não a vi
Obscuramente me desconcebi ".
(Fernando Pessoa)
Na reminiscência dos conflitos infantis,
o adolescente em busca de limites põe à prova a lei dos
adultos. Falhas em seu desenvolvimento não lhe permite reconhecer
neles os depositários da lei, ele põe em cheque os fundamentos
da lei: até onde se pode ir sem morrer? Esta fantasia de morte
está sempre presente no adolescente, ligada aos desejos de autonomia
em relação à família. Aos riscos desta autonomia
junta-se a dificuldade de abandonar a posição de objeto
ideal da mãe para ceder ao desejo e passar na dimensão
de ser para a de ter. Esses riscos são explicados como uma tentativa
de manutenção do sujeito na posição do objeto
ideal.
Temos que procurar a causa do alcoolismo na infância do sujeito,
na passagem da dependência total do lactente para individualização
da criança. Devemos enfatizar onde se forma o seu "eu",
e onde ele deixa de ser o objeto da mãe. Em seguida, devemos
enfatizar o momento quando vive a temática de castração
em relação com sua mãe e seu pai, que é,
mais ou menos, como o fundador da lei. Freud em 1931, escreve: "Todas
as coisas da esfera dessa ligação primária com
a mãe me pareciam tão difíceis de apreender na
análise, tão encanecidas pelo tempo, tão envoltas
em brumas e quase impossíveis de revificar, que era como se tivessem
sucumbido a um recalcamento particularmente inexorável.
A passagem do eu - ideal para a posição do sujeito da
linguagem, esta passagem não pode ocorrer senão quando
a mãe, embora reforçando de início uma imagem ideal,
submete sua relação com a criança a um quadro social,
mesmo que totêmico.
A onipotência do desejo tende sempre a nos levar à nossa
vivência, às nossas fantasias infantis. Isso é normal,
exceto ao tornar a morte a única iniciação ou a
volta ao seio da mãe, quando a busca da satisfação
do desejo continua para sempre inacabada.
A procura desenfreada do prazer imediato, que encontra em numerosos
adolescentes, é também tentativa de domínio ou
mesmo fuga e recusa de uma satisfação de desejo. No caso
do uso do álcool, é certamente preciso destacar o caráter
muito particular de experiência de prazer, cuja função
na economia do sujeito, pode ser qualificada de alucinatória.
A necessidade do álcool está presente desde o princípio,
no momento que se inaugura a relação com a droga.O próprio
sofrimento do adolescente, a falta não são mais um mero
acidente de percurso, mas a prova renovada desta realidade: O álcool
não poderia ser objeto de amor, mas de uma paixão onde
o sujeito se tornou objeto, e onde ele tenta viver em uma realidade
corporal pela própria alternância deste prazer e deste
sofrimento.
Essa necessidade de prazer imediato leva o adolescente ao isolamento
de uma masturbação repetitiva. Paralelamente, esta fuga
para frente na ação e o prazer imediato é que os
adolescentes têm o recurso à retração em
si, à meditação, à intelectualização
que se tornou um mecanismo de defesa característico dos adolescentes.
O álcool existe sem o alcoolismo. O objeto álcool existe
e sempre existiu em todos os tempos e lugares. Diante deste objeto,
a atitude do homem é variável conforme o espaço,
a ideologia, o lugar e o momento sócio - cultural onde, neste
mesmo momento, a atitude dos indivíduos é variável,
conforme a vulnerabilidade pessoal ligada à história do
sujeito diante da falta. Toda a falta no ser humano remete a uma outra
falta arcaica e é nisso que se situa a especificidade da dependência
humana.
A ressurgência dos sintomas de privação no dia que
precede a saída da clínica, quando tudo vai apresentar
novamente ao sujeito: a presença do produto, sua personalidade
e a "sociedade". Sabemos que é da falta da falta que
o sujeito tem medo. Porque sem esta falta, é o enfrentamento
com a falta fundamental, arcaica, que pode ser novamente encontrado.
A dependência é um fenômeno tanto ativo como passivo,
e por este lado põe em cena o desejo. É na falta que se
exprime melhor esse desejo. De um lado o fenômeno é passivo,
físico-químico (entre outras coisas o álcool acaba
com a bainha de mielina, gordura responsável para proteger o
neurônio, e também responsável pela velocidade do
impulso elétrico) e, por outro lado, o fenômeno é
ativo, voluntarista, que se torna um modo de existência, uma relação
com a vida que permite evacuar tudo que aconteceu ao sujeito desde o
estágio do espelho quebrado.
É importante dar ênfase ao que passa na memória
do sujeito, no limite do inconsciente e do não - dito, que é
o prazer enfeitado pelo imaginário do sujeito e continuamente
confrontado com a verdadeira guerra psicológica com tudo que
for diferente: lacuna inicial, sistema familiar e todos os demais prazeres.
É no dia em que desaparece o prazer que se instala a falta. A
intensidade da falta pode contrabalançar a intensidade do prazer.
E assim, para o alcoólatra, não importa o preço
a pagar e nem a queda, isto porque o que é mesmo importante é
ser narciso.
O narcisismo nasceu no estágio do espelho quebrado, onde a identidade
se faz e se desfaz no mesmo passo. Uma identidade depende tanto da intensidade
como de causalidade; ela é sentida como afetiva, pouco intelectualizada,
perceptível nas ligações viscerais, instintivas
com a família. Mas é bom enfatizar que não há
perda do objeto e desestruturação do ego, o que se daria
de uma vez por todas. O que ocorre é um jogo de pingue-pongue
em perpétuo empate, rejeição possessão,
ao lado da mãe. Estruturação - desestruturação,
ele procura no álcool uma completeza para sua identidade fragmentada.
Também existe o desejo "de ser Deus".
"O traumatismo da incerteza", surge da incerteza inicial,
de ser ou não ser, de ser amado ou de não ser amado, de
ser moça ou rapaz, o sujeito sofre desde o momento que o espelho
se quebra, e alcoolizar-se primeiro pelo prazer de início e depois
a dependência, recomeçar ou não a beber e de livre-arbítrio
do sujeito. Então o alcoólatra pode ser comparado com
Narciso, porque, como Narciso, ele se apaixona somente por uma imagem,
a sua, que a cada instante ele constrói. E, como Narciso, tenta
reunir-se a ela correndo o risco de morrer. Mas, diferentemente de Narciso,
ele sabe desde o princípio que esta imagem é inatingível.
No momento que instala o traumatismo da incerteza, esta criança
que tudo vai arriscar, tudo transgredir, sabe que, por mais próxima
que esteja, sempre estará longe. Ele sempre é o que irá
mais longe em sua sexualidade, em suas fantasias, no sadomasoquismo
ele chegará o mais perto possível do incesto e de sua
proibição, mas nada, jamais irá colar os pedaços
dispersos do espelho. E assim, desde perto e desde longe, desta transgressão
inútil nasce a necessidade da dependência, cuja função
é mantê-lo afastado de tudo isso, que lhe traz impotência
e desespero.
A dependência do álcool passa a existir com certeza. O
importante na dependência é que nela se pode afirmar, a
cada vez novamente, a fantasia de um desejo.
O não - dito do dependente é o que a dependência
restringe, a liberdade do homem, em um movimento contrário, ela
emancipa de toda uma série de medos, fantasias e incompletezas,
de imagens parciais que são seu quinhão da fratura inicial.
No tratamento, ou mesmo, na internação do alcoólatra,
os efeitos do álcool são substituídos pela linguagem,
isto é, pelo discurso do sujeito. No início, os efeitos
insubstituíveis de que falamos são substituídos
por uma cinética de sedução - dessedução,
em uma série de compromissos instáveis que deve levar
à democracia psíquica: a de poder fazer escolhas ao preço
de uma repressão mantida de um desejo que aceita não mais
poder se exprimir. À função estruturante da dependência
em relação à não identidade nascida na fratura
do espelho irá se opor à função estruturante
da relação perversa com o terapeuta e/ou instituição
terapêutica, até que este novo duo esteja suficientemente
forte para compensar bem ou mal, o precedente, e que se possa passar
pouco a pouco, para o aprendizado de não dependência.
Então, aquele que, de seu desejo obteve o significante droga,
tornando-o um desejo significado, pode tornar como significante o terapeuta
e como desejo significado a liberdade.
A psicanálise procurou filiar os alcoólatras a seus esquemas
interpretativos, em função das tendências preferidas
por autores diversos. Assim, os que se encontram vinculados à
orientação mais ortodoxa valorizam muito a oralidade em
que teria se fixado o alcoólatra durante o desenvolvimento libidinoso
psicossexual.
A imagem materna teria figurado muito omissa nas necessidades infantis
do ego fraco, levando-o à procura do álcool como substituto
desta frustração.
O alcoólatra pode ter uma organização de personalidade
neurótica profunda e primitiva, com intensa agressividade dirigida
contra a figura paterna, violenta e severa. O álcool seria integrado
em seu psiquismo precocemente, numa tentativa de eliminar essa figura
através do seu envenenamento.
Alguns psicanalistas fazem uma analogia com as "toxicomanias alimentares",
comparando a ingestão de álcool a um ato masturbatório
para a obtenção de orgasmo alimentar. Tudo no alcoólatra
gira em torno da falta. O álcool entra como sintoma encobridor
dessa falta onde há uma inconformidade diante dela, então,
o álcool vai ser colocado como o falo.
A psicanálise reconhece nos alcoólatras a existência
de conflitos homossexuais, levados, inconscientes ou explícitos
que procurariam no álcool um equivalente da imagem materna idealizada.
O homem é um ser desejante. Esse desejo não se reprime
permanecendo recalcado ou sublimado, transformando-se mais tarde em
sintoma, podendo ser o álcool. Existe um paradoxo em nossa sociedade.
Ela reprime o desejo mas não obstaculiza o acesso do adolescente
à aquisição do álcool tornando-se cúmplice
neste processo de saída.
Há uma esperança. Em uma manobra admirável, Freud
funda o método psicanalítico. Utiliza-se do Amor de Transferência
na condição de cura de seus analisandos. O Amor Transferencial
aparece provocado pela própria situação analítica,
por ser não - todo apresenta além de sua vertente Narcísica,
de demanda de amor, sua vertente traumática: a do outro amor.
O que vai então desenrolar é uma história de amor
como não há outra igual, pois neste universo de onde a
fusão é excluída, o analista, por sua exigência
ética, não se satura de buscar ouvir seu analisando.
O paradoxo do Amor Transferencial é que ele é, ao mesmo
tempo, motor e obstáculo à cura, no processo analítico,
o analisando passa então da demanda de ser amado, que conduz
o sujeito ao estado de clausura alienante, ao desejo de amar de onde
eclodem possibilidades infinitas de construções outras.
O narcisismo é uma elã vital e graças a ele a reparação
da ferida narcísica primitiva parece ser uma necessidade para
o homem e graças a este "guardião da vida" a
psicanálise encontra aí a brecha para seu trabalho de
reconstrução do homem que continuamente busca o restabelecimento
de sua completude perdida.
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Olievenstein, Claude. A Clínica do Toxicômano -
a falta da falta, ed. Artes Médicas - Porto Alegre, 1989.
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